Hoje, numa das minhas aulas,
enquanto uns quantos saltavam à corda, uma rapariga de 12 anos, espigadota em
altura e veneta, zangada porque um colega a tinha feito tropeçar na corda, lançou uma catadupa de asneiras grosseira ditas de forma
automática, vindas do fundo do seu ser, a certeza de que assim fala,
naturalmente, no seu dia-a-dia, na relação com os outros. Após o ímpeto inicial
e de refilar ao castigo aplicado, veio perguntar-me se podia retomar a aula.
Não me apareceu numa postura que fosse de alguma humildade e conciliação. O
pedido de desculpas invariavelmente ausente; refilando ainda, gaguejou no tom
acima do tom, com que sempre fala com as pessoas, quaisquer que sejam, de que o
outro a tinha enervado. A conversa continuou mas num sentido só, comigo a
tentar explicar-lhe porque não podia ser esse o caminho, com ela a argumentar
que a sua zanga tudo podia, até a agressão verbal, ao colega e a todos os que
se encontravam por perto. Tentei mostrar-lhe que cada qual tem que medir os
seus actos, porque cada acto tem uma consequência; não me compreendeu. Mantinha
a teima de que o seu acto se justificava plenamente, dado que a ela lhe era
impossível refrear a sua fúria, tendo sido instigada a isso. Mandei-a sentar-se
e assim se manteve, refilando ainda para quem a queria ouvir, que o outro é que
tinha tido a culpa, que o outro é que começara, que o que fizera era apenas uma
reacção a uma acção que não fora ela a provocar.
A propósito do jovem batido na Figueira da
Foz, tento perceber o que leva uns quantos adolescentes a sovarem um colega e a
filmarem o acto. Tento perceber o que leva o jovem batido a deixar-se bater sem
um protesto que seja. Observo a indiferença de tudo, da violência física
presente e da violência maior que consiste na encenação de tudo, da filmagem,
da pausa, do jogo de poder que se arrasta, da postura de submissão do rapaz que
a cada bofetada não enseja um gesto que o proteja, que não emita um protesto. É uma cena odiosa a que se assiste.
São duas histórias com amplitudes e
contornos diferentes e, no entanto, aproximam-se na indiferença com que,
jovens, miúdos, quase crianças assumem a violência, nas palavras, nos gestos e
na omissão deles.
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