terça-feira, 10 de maio de 2016

Eu sou a mãe!!

Ontem! Local:a minha escola, campo desportivo exterior. "Alexandre, vamos embora! Estou desde as 11,00 à porta da escola à tua espera!" grita alguém muito irritado, por detrás de mim, uma mulher debruçada no varandim de uma das rampas perto da zona desportiva, dirige-se a um aluno meu. Perto do aluno pergunto: "Quem é, Alexandre?!", " a minha mãe", responde. Observo-a melhor certa de a conhecer de algum lado. Aproximo-me, já a ferver e digo suavemente: " Parece-me que teria sido mais correcto se se tivesse dirigido a mim!". Resposta rápida meia atrapalhada, a despachar "Ah, é que estamos atrasados para ir a uma consulta!". Continuo, "De qualquer forma...o Alexandre está em aula, a senhora interrompeu a aula, era comigo que devia ter falado primeiro para deixar sair o seu filho!". Já me recordo de onde a conheço: foi funcionária nesta escola no ano lectivo anterior!!! Por esta altura, a mulher mostra toda a sua impaciência para comigo, bate o pé, roda as ancas empertigada, vira-me as costas ao mesmo tempo que me diz:" Eu sou a mãe!" Como se ser a mãe dê toda a autoridade e justifique impertinências, indelicadezas e malcriações para com os outros! " E eu sou a professora e quem manda aqui sou eu!"  ainda disse mas penso que a mulher já não me ouviu, tão plena de razões se sentia. O aluno já tinha sorrateriramente saído da aula para ir ter com a mãe, envergonhado que estava! Facto interessante: três alunas minhas , batidas nas faltas de material e de assíduidade muito inconstante, sentadas alí perto, olharam para mim, atónitas! Depois de cada uma delas, à sua maneira, ter sentido a necessidade de mostrar a sua solidariedade por mim, com comentários certeiros sobre a conduta da outra senhora, uma rematou o assunto assim " Deixe lá professora, é de S. Mateus!"

Indiferença

Hoje, numa das minhas aulas, enquanto uns quantos saltavam à corda, uma rapariga de 12 anos, espigadota em altura e veneta, zangada porque um colega a tinha feito tropeçar na corda, lançou uma catadupa de asneiras grosseira ditas de forma automática, vindas do fundo do seu ser, a certeza de que assim fala, naturalmente, no seu dia-a-dia, na relação com os outros. Após o ímpeto inicial e de refilar ao castigo aplicado, veio perguntar-me se podia retomar a aula. Não me apareceu numa postura que fosse de alguma humildade e conciliação. O pedido de desculpas invariavelmente ausente; refilando ainda, gaguejou no tom acima do tom, com que sempre fala com as pessoas, quaisquer que sejam, de que o outro a tinha enervado. A conversa continuou mas num sentido só, comigo a tentar explicar-lhe porque não podia ser esse o caminho, com ela a argumentar que a sua zanga tudo podia, até a agressão verbal, ao colega e a todos os que se encontravam por perto. Tentei mostrar-lhe que cada qual tem que medir os seus actos, porque cada acto tem uma consequência; não me compreendeu. Mantinha a teima de que o seu acto se justificava plenamente, dado que a ela lhe era impossível refrear a sua fúria, tendo sido instigada a isso. Mandei-a sentar-se e assim se manteve, refilando ainda para quem a queria ouvir, que o outro é que tinha tido a culpa, que o outro é que começara, que o que fizera era apenas uma reacção a uma acção que não fora ela a provocar.
   A propósito do jovem batido na Figueira da Foz, tento perceber o que leva uns quantos adolescentes a sovarem um colega e a filmarem o acto. Tento perceber o que leva o jovem batido a deixar-se bater sem um protesto que seja. Observo a indiferença de tudo, da violência física presente e da violência maior que consiste na encenação de tudo, da filmagem, da pausa, do jogo de poder que se arrasta, da postura de submissão do rapaz que a cada bofetada não enseja um gesto que o proteja, que não emita um protesto.  É uma cena odiosa a que se assiste.
   São duas histórias com amplitudes e contornos diferentes e, no entanto, aproximam-se na indiferença com que, jovens, miúdos, quase crianças assumem a violência, nas palavras, nos gestos e na omissão deles.

   

Loucos...professores

É nas minhas idas para a vila de S. Sebastião e no regresso a casa que mais penso; normalmente penso, valha-me isso, mas aqui, no carro do pão azul de amortecedores de carroça,  o cérebro  entrechoca-se  e as sinapses nervosas dão-se mais depressa, para o melhor e amiúde para o pior! E quando digo pior quero com isso dizer que me dá para pensar mal! Pensar mal de alguma coisa, de alguém, umas vezes com razão, grande parte das vezes sem ela! Pensar como nesta vida de 45 anos me deparei já com tanta gente que tanto tempo me fez perder! Que é algo que com 45 anos já não tenho paciência: perder tempo com gente que nada me diz, nada me dirá e com quem não tenho a mínima vontade de confraternizar! E todos nós sabemos como nesta vida tantas vezes temos que aguentar, conviver, falar, partilhar tempos, momentos, instantes que, podendo nós sermos inteiramente livres de gerir as nossas vidas, nunca nos cruzariamos, nunca falariamos, nunca respirariamos o mesmo ar. Parece cruel, é cruel, é assim. Não aspiro à perfeição, não tenho espírito de monge tibetano, sou imperfeita, irrequieta, insatisfeita! E não tenho paciência para aguentar gente chata, incompetente, chica-esperta, lambe cus, submissa. No mundo do ensino, volta e meia ouve-se que um professor está de baixa por incapacidade psicológica; passou-se, fundiu a cachimónia, passou para lá do lado negro da lua e pode fazer o que quiser, acumpultura, reiki, ioga e outras cenas psicadélicas e esotéricas ou acudir-se de ansiolíticos  e antidepressivos, que não há volta a dar. Professor que endoidece, não volta a são. O ser humano doido é terrível de se ver; um professor doido é ainda pior, é requintado na sua insanidade e para além disso não há dois professores doidos iguais na expressão das suas maluqueiras; dou aulas há 25 anos pelo que me já foi dado observar muitos colegas doidos ou a caminho de o ser; posso afirmar que ver um professor a endoidecer é patético, no entanto inevitável, para quem não tem estrutura, força, jogo de cintura, um certo relaxamento professoral que muitas vezes se confunde com desmotivação. 
   Havia, e há, eu é que já lá não estou, um professor na minha escola de L. que parecia saudável; os professores doidos normalmente enganam bem, toca-se no ponto que despoleta o mecanismo gerador da loucura e é vê-los resvalar; este professor agia com uma certa sobranceria com os novos na casa, era dado a piropos a professoras jovens; este estado de graça com as professoras durava algum tempo até lhes ser dado conhecer o personagem nas reuniões de avaliação; tornava-se arrogante, dono da razão, achava que escrevia bem, ehehehehehe, deixem-me rir, era daqueles fulanos que tinha uma caligrafia sobre o comprido e inclinada, uma forma demodé de desenhar as letras e não sabia redigir uma simples acta; tinha uma tendência absolutamente irritante para ser do contra, não que tivesse argumentos que sustentassem a sua posição mas porque tinha necessidade de ser o centro das atenções. Os mais velhos já o conheciam de ginjeira,  deixavam-no falar, os novos, incrédulos e receosos calavam-e por outros motivos, aqueles que como eu lhes chegava facilmente a mostarda ao nariz, tinham algumas pegas desagradáveis. Era daquelas pessoas que conhecia toda a gente, normalmente gente importante. Nunca conseguiamos fazer bonito na conversa porque o homem conhecia sempre essa pessoa e o amigo dessa, ainda mais importante que a primeira.  Das primeiras vezes que me viu elogiava-me e chegou certa vez a dizer quando entrei na sala de professores " Chegou a primavera!" Esse estado de graça terminou quando um dia achou que eu seria uma boa parceira para formar uma lista para o conselho executivo. Tive a audácia de me rir e tal afronta nunca me perdoou. A  partir daí nunca mais me falou, se tinha que passar por mim ignorava-me, não comentava nada do que dizia, e o melhor, coibia-se de cair em cima dos mais fracos, outros colegas nossos, a quem amochava como tão bem sabia, a quem por feitio ou gentileza não tinham estrutura para lhe responder, porque sabia que se fosse bruto, indelicado, grosseiro, eu estava ali para abrir a boca. Contaram-me por esses tempos que o homem tinha uma história mal resolvida com o ultramar, umas quantas armas em casa e alguma disposição para se servir delas junto dos colegas. Nunca se confirmou, no entanto fiquei sempre a pensar que um dia chegaria à escola e seria recebida a tiros de caçadeira. Na escola de L. não havia professor mais louco e ainda assim era discreto, para quem o não conhecesse de perto. Vinda para as ilhas, novos personagens surgem, cada um deles perfeito na sua loucura. É que cada um deles não admite que está louco pelo que não consegue fazer a regulação do seu comportamento. Admitir que não se está bem permite ter mecanismos de prevenção. Assumir-se como são traz os maiores desvarios. Haviam duas, mulheres, na escola B. Uma era uma louca passiva, só fazia mal a si própria, a outra, uma louca arrogante. A primeira, cuidava cada qual de lhe passar ao largo e a coisa funcionava; a segunda era mais difícil. Uma louca com predicados de catolicismo arreigado, uma espécie de santa em tentação permanente do demo. A mistura era explosiva; a essa senti-lhe a língua venenosa e alguns calafrios na espinha. Também me detestava quando um dia, cheia de beatice e amor ao próximo, censurou um colega por ter tido este  um comentário homofóbico; o que lhe disse deixou-a de tal forma possessa que senti uma sombra escura a atravessar-me as meninges, uma cena de filme de terror! Essa colega além de insane achava que toda a gente era burra, tomava-nos por totós.  Uma louca varrida com princípios cristãos que punha de parte sempre que lhe convinha quando, por exemplo dizia a um aluno " esmago-te a cabeça contra a parede!".Essa ainda dá aulas, reforma compulsiva nem se pensa nisso, algumas cabeças mais ameaçará esmagar até que a sua loucura a faça esquecer de vez o caminho de casa até à escola. Por agora chega invariavelmente atrasada, sempre culpa do outro, do carro, de Deus ou do diabo, vitima constante e inocente. Tempo haverá que deixe de chegar e fazer assim, um favor aos alunos e a si própria.
   Há, no entanto, uma classe à parte no mundo do professores. São aqueles que são loucos e para além disso, são também professores de educação física. É sabido que este grupo de professores é uma classe à parte, são descontraídos, quase relaxados, têm uma forma muito própria de ver o ensino, os alunos, eles próprios e qualquer um de nós tem memórias, pelo menos uma, de algum professor de educação física. Eu própria tenho como modelo do bom professor, dois, um deles de educação física: a primeira, a minha professora da 3ª e da 4ª classe, a Dona Maria do Rosário, professora à moda antiga, de quem ainda me recordo às feições e o modo de ser, delicado mas incisivo, branda mas com autoridade. O outro, um professor de educação física. Estes dois professores, estou certa, moldaram o meu carácter  ajudaram-me a ser quem sou. Tive a sorte de os ter sãos porque se por azar me tivessem surgido outros que conheci, provavelmente seria desajustada para o resto da minha vida. Normalmente, os professores de educação física são muito fixes, quando são doidos, são doidos a valer. Sem fazer grande esforço de memória posso já, num repente que demora um piscar de olhos, nomear quatro. Quatro professores de educação física, meus colegas, em alturas diferentes do meu percurso como professora que desaconselho ao meu pior inimigo. Dois deles apresentavam-se de gravata e fato completo o que já de si cria algumas suspeitas. Parece que um era observador de arbitragem de futebol (?) e casualmente, por coincidência engraçada, observava jogos sempre após as aulas o que não lhe dava muito tempo para se trocar; sabendo como esta classe é prática, entende-se a racionalidade da decisão da vestimenta. Nunca o vi de fato de treino, o que neste grupo, é um facto a estranhar. O outro, nunca percebi verdadeiramente porque dava aulas de educação física; parece que sim, que era verdade, a mim parecia-me mais um delegado de propaganda médica. Ao primeiro, constatei o facto de ser doido varrido, bastava para tal abrir a boca e falar, o segundo era de tal forma obscuro e surgiu tão cedo na minha missão como professora que me mantinha a uma distância segura. O terceiro louco fez-me a vida negra durante alguns anos, era daqueles que saem da faculdade já doutorados, sem necessidade de mais aprendizagem. À conta de tal pressuposto fez os maiores desvarios e foi o primeiro grande responsável por me arrepender de ter enveredado pela profissão. De olhar cândido a cada censura velada ou declarada, agia de forma igual na vez seguinte o que me fazia supor, que efectivamente não tinha a capacidade de pensar. Mas pensava, de forma retorcida pensava. Tornou-se uma personagem incontornável no historial da escola de L., anedotas feitas à sua conta e à minha conta que o aturei mais do que o suportável. Um dia, fez o favor de desaparecer e deixou atrás de si, saudades nenhumas e histórias, muitas! E é só por elas que se recorda, atente-se, com alguma nostalgia!  O último e mais recente, pertence ao historial açoriano e já tem uma crónica só para ele. Para os interessados, aconselha-se, neste blogue, o que diz " O lambe-botas". Este, parece que ainda vai lambendo umas quantas, entretanto,  zarpei eu de B. para S. e por aí  não descobri, até à data,  um louco à altura. Ainda!

Maionese de gambas

Incrível mas verdade: a única nostalgia, na verdade não posso falar em saudades, deixada pela Escola Tomás de Borba é o seu parque de estacionamento: belas sonecas que tirei ali  na zona encostada ao muro, de frente para as lagartixas autóctones,  muito mais simpáticas que a maioria dos professores, meus colegas. Bem de costas para a chegada do pessoal para  ter possibilidade de dormir de boca aberta e poder  babar-me  à vontade. Todos os dias passo por ali e aquele cantinho, ali mais reservado, dá-me ânsias.  Ainda por cima passo por lá muito cedo e só entro na minha escola quase uma hora depois, no entanto fico a pensar que não seria bem aceite, ficar por ali a dormir meia hora para depois pisgar-me, iria possivelmente dar nas vistas; o meu carro, a versão azul do carro do pão é o único na ilha, toda a gente sabe onde estou, é uma treta. Já considerei mudar de carro, ocorre-me que este motivo é o mais forte que encontro até agora para fazer a troca. Um renault clio possivelmente, toda a gente tem renaults clios ou então chevrolets, o pessoal daqui gosta muito de chevrolets, porquê, ignoro.
  
    Na minha nova escola tenho pouco tempo para dormir, para além disso, inacreditavelmente, os gajos que projectaram a escola esqueceram-se de, por uma razão de saúde publica, ainda por cima saúde publica de uma classe já de si tão martirizada como a classe docente, fazerem uma espécie de reservado, o correspondente à sala dos médicos para dormir onde estes, confiando que  o que se passa na  "Anatomia de Grey" é verdade, para além de dormir fazem outras coisas.
   O que  eu queria mesmo era um sitiozinho para poder dormir meia hora à vontade, eu que creio firmemente sofrer de narcolepsia, sem ter uns diabretes a fazerem pontaria para a minha boca aberta a ver quem consegue acertar primeiro, com um pedaço de papel, miolo de pão ou outras cenas impossiveis de mencionar. 

   Às vezes prego umas mentirinhas aos meus alunos: o ano passado tinha uma turma insuportável, já falei nela aqui algures, estou certa que esse meninos contribuíram em parte para esta minha forma de ser, meia stressada; por vezes ia mais relaxada, outra vezes ia furibunda e possessa e ia tudo a eito, sem lhes dar hipóteses de respirarem, sequer. Numa das primeiras vezes que sentiram a minha fúria  disse-lhes que tinha dupla personalidade, que por vezes, havia outro ser que habitava em mim e que aparecia sem que me desse conta, uma irmã gémea, que surgia e que não conseguia controlar,   a quem chamei de Belinda, a irmã má da professora Bárbara. Pois, a história pegou, alguns, poucos, acharam a professora doida, ainda mais do que eles próprios, o que me deve ter elevado aos seus olhares, os outros acharam simplesmente que eu era meia estranha, um pouco digna de dó e alinharam na história e quando as fúrias me davam diziam " Professora, hoje foi a Belinda que veio à escola!".

   Sempre que me perguntam " Professora, o que é que vamos fazer hoje?" A resposta vêm lesta e sempre: " maionese de gambas" Foi qualquer coisa que ouvi há uns aninhos atrás numa publicidade qualquer e a coisa resultou na minha cabeça. Resulta também com os alunos que ficam calados durante uns preciosos 3 segundos durante os quais afinam os fusíveis para digerirem a resposta: uns, os mais manhosos, riem-se e fazem graças apesar de não perceberem patavina do que disse, outros, os miúdos de coração franco e ingenuidade de criança,  levam a graça à letra, perguntam se vamos cozinhar em vez de fazer "ginástica", outros, os tímidos, e os de carapaça mais grossa não se pronunciam achando com grande probabilidade que a professora deixou de funcionar bem. Acaba invariavelmente tudo numa risota pegada, o que só nos faz bem! Muitos já me perguntam quando me vêm: " Professora, como é, vamos fazer maionese de gambas?"

Billy Elliot



   A ver Billy Elliot hoje, no primeiro dia de Fevereiro... mais cedo, nesta tarde de 6ª feira, uma turma do 5º ano; mandei os rapazes,  depois de uma aula de segunda-feira onde me fizeram a vida  negra, bocejaram, cruzaram os braços,  protestaram, afirmaram ofendidos que dançar era para meninas, insisti que iriam dançar o chachacha, dançaram, diria que fizeram o melhor que souberam para me deixarem furiosa... dizia, enxotei-os, todos para a rua,  um campo de futebol sintético melhor do que muitos campos do nosso país, é isso que querem, é isso que vão ter, uma bola e 5 coletes, vão-se embora e não me chateiem...fiquei com as meninas... aula estranha, silênciosa... trabalhou-se o chachacha e a rumba quadrada, em silêncio quase absoluto, com a música suave, elas atentas, eu empolgada por conseguir ensinar algo mais do que o trivial...  eles a claudicarem aos poucos , um pé magoado, um outro que não lhe passa a bola, discussões sem nexo, eles a vê-las dançar, bem, relaxadas, de rostos luzidios e animados. Eles sem darem parte de fracos " querem dançar? venham.. não sei dançar, não gosto, dançar é para meninas..." mas olhando para elas e ficando a olhar, a gostar de ver o que estão a ver, elas bonitas, coradas a perceber o que a professora quer, orgulhosas de perceber como fazer...risonhas, vermelhas do esforço, rodem as ancas meninas, soltem-se, oiçam a música, deixem-se levar... um que pergunta "posso dançar, professora?" ar sério e envergonhado, "claro que podes, segue-me" a mostrar-lhe como se faz, ele contente e enfim solto, a música que entra a custo no seu corpo mas que faz eco.. ele que relaxa, que respira mais suave, que se solta e que me segue... rápido, rápido, lento, ouve a música, deixa-a entrar... rápido, rápido, lento... outro que entra e que se detêm... " professora, estou cansado posso entrar?" " claro, descansa um pouco" . Vislumbro pela porta ampla, eles lá fora, em jogos de macho, barulhentos, quezilentos, uns felizes outros frustrados, passa a bola, porra, tou sozinho aqui à frente, caraças. A constatação aliviada de que os meus meninos do 5º ano ainda não são de dizer grandes asneiras e que ao contrário do que me vou habituando ultimamente, com uma grande tristeza sentida, estes meninos ainda são doces e meigos, irrequietos como devem ser as crianças, irrequietos mas francos, verdadeiros, felizes de estarem ali." Oh professora, estamos cansados, podemos vir para aqui? Vais dançar?" Encolher de ombros..." anda lá!" peço risonha ... uns que entram depois dos outros, aproximam-se, vamos lá, na rumba é fundamental o movimento de anca, alguns finalmente desligam do que os impede de se soltar e dão uns abanões engraçados aos quadris, sorrio para dentro, apetece-me soltar uma gargalhada e dizer " é isso, meu grande banana, estavas para aí a fingir que nada sabes disso e no entanto sabes como se faz, vá, deixa-te de coisas e mexe-te". Exagero na forma de dançar e digo - imitem-me -  eles e elas riem-se e obedecem, uns no ritmo, os outros numa onda paralela, de expressão corporal estranha, já lhe passaram as vergonhas e esqueceram que há mais gente ali e dançam, atabalhoadamente, com jeito, não importa. Interrompe-se a aula para os mandar para o duche,  o tempo que passou sem se darem conta.

   A ver Billy Elliot em chegada a casa e penso nos meus alunos, um sorriso grande, nem de propósito, um dia destes reservo-lhes uma aula para vermos  o filme! A ver o que eles dizem!

O baldas

   O professor baldas já nasceu cansado e como tal tem uma apetência especial para a exaustão ; não tem pressas nem lhe entra o stress, chega sempre tarde mas nem por isso, 5, 6, 7 minutos, coisa pouca mas que dá jeito; cumpre no seu oficio os serviços mínimos e mais não o faz porque o mundo não merece, não merece que ele trabalhe porque o mundo nada faz por ele; é um contestatário do ensino, oco, que nada acrescenta,  o outro, o que faz  é um palerma porque ninguém, no final, lhe agradecerá. O professor baldas contestatário é muito opinioso, vomita frases feitas e insurge-se com o estado da nação e, pasme-se, com o estado do ensino. Bastas vezes é auto-complacente e tem pena de si próprio, sente que dá muito de si à escola e a paga não é proporcional. Qualquer trabalho mais para além do exigido é anunciado aos quatro ventos como um sacrifício de alto valor; são deles as frases " anda uma pessoa a trabalhar para quê, ninguém nos dá valor?!"
   Para que se não sintam demasiado cansados normalmente trabalham sentados de perna cruzada, à distância comandam as tropas, e dispensam coisas do domínio extraterrestre como tabelas de avaliação ou planificações. Se estiverem distraídos acabam por mostrar parte do rabo com observações adequadas a quem não sabe o que anda ali a fazer. Se é para fazer algo mais moroso, burocrático ou de aplicação não imediata a pergunta fatal é " Para que é que estamos a fazer isso? Achas que alguém vai notar? É mesmo preciso? Tens a certeza da utilidade de tal coisa?"  O que se vai dar na aula seguinte depende da vontade, normalmente dos alunos; são extremamente permeáveis às vontades das crianças e por isso são professores muito fixes e dão grandes liberdades aos miúdos para se expressarem: a entropia no ensino onde reina a galhofa e a auto-recreação, e a placidez na expressão do rosto de quem não se vai massacrar demasiado a impor regras de convivência e saber estar. A criança tem que se expressar, calá-la é coarctar a sua liberdade, que há de mais libertador que ter um bando de pequenos índios a incendiar os nossos ouvidos na sala de aula ou no ginásio? Deixá-los, é mais fácil deixá-los do que educá-los, não me pagam para isso, não é verdade? Se os pais não querem e não fazem, sou eu que vou fazer?! Só se for tolo!  
   Dar aulas é uma seca pelo que a coisa faz-se de mansinho, sem levantar ondas e sem muito trabalho. Cumpre-se o calendário sem deixar algo que perdure, e muito menos o exemplo.

Atingidos os 29 anos a dar aulas, é nesta terra que encontro desculpas para não fazer a aula do tipo " comprei um fato de treino novo, já fui ordenhar as cabras e não o sujei. Quero ver se continua assim" , " doi-me a perna, levei um coice dum bezerro" ou a variante " um cavalo pos-me a pata em cima do pé" ou a aficionada" tenho as costelas a doerem, fui pegado por um touro"! Nem a velhinha e criativa " esqueci-me" escapa; cá na terra é "desqueci-me" que sempre sai, um pouco, do lugar comum!

Este meu filho mais novo surpreende-me tantas vezes. Hoje chegou-me com dois papeis da escola, enviadas pela professora de inglês, dizendo que precisam da nossa ajuda, dos pais, para a preparação de algumas actividades para o dia 21 de março, uma delas na confecção dos inevitáveis scones e outra na decoração de um chapéu. Ora,  confesso que a professora de inglês do Gui me começou a irritar um tanto quando proibiu o puto de fazer um teste escrito no dia em que este tinha ido a uma prova desportiva, tinha chegado encharcado e eu o  mandei para casa. É verdade que não sabia que havia teste, mas é certo que , para um criança que tem uma facilidade enorme no inglês, fala online com miúdos estrangeiros, não ia sentir-se intimidado com um teste. Foi para casa porque me parecer o mais correto. O que é certo é que não permitiu que fizesse o teste noutro dia e assim ficou. Não quis zangar-me, sou professora também, mas ficou uma certa decepção. Eu conheço-a, fui sua colega! E há coisas que não guardo, quando soube barafustei e ficou por ali. Hoje, lendo os papeis, disse sem me conter " Gui, não sei se a tua professora merece?!" Com um ar de infinita paciência e algo condescendente como se falasse com uma criança: " Porquê, por causa daquela coisinha? Vá lá mãe, dá-lhe outra oportunidade!"
  Sempre a aprender!
Estou a pensar que ontem uma aluna me chamou p.u.t.a e que se calhar nos tempos que correm é uma "profissão" a ponderar ... Já viram se ela comete a injúria máxima de me chamar "professora" ou mesmo "funcionária pública"? Nunca mais me levantava com a vergonha!


   Na aula, uma turma do 5° ano, exercícios de progressão para o salto em comprimento. Um artista daqueles com resposta na ponta da língua, atrapalha-se na chamada (impulsão) antes do salto, várias vezes. " Meninos, chamada a dois pés ou a um?" resposta em coro " a um" " foi o que o vosso colega fez?" " não" . Logo diz este " eu faço a chamada com quantos pés quiser!" E pronto!!!

O presidente da Junta

Tive, hoje, uma conversa muito profícua com alguns alunos de uma daquelas turmas ‘especiais’, alunos de 16 anos, com um historial de insucesso recorrente e desajustados do mundo escolar. Alunos que invariavelmente se esquecem do equipamento para a aula, alunos que por vezes vêm as aulas e por vezes não vêm, é quando lhes apetece ou quando os obrigam ou ameaçam com a proteção de menores. Sentei-me um momento junto deles e a conversa entre nós foi fluindo, eu no meu sermão de cátedra, pela sexagésima oitava vez, não muito inspirada, concedo que tê-los ali, na sala, junto a mim já é uma vitória, eles com a correspondente desculpa da praxe. Vai daí, sem combinarem começam os dois, um rapaz e uma rapariga a fazerem-me perguntas: Quantos anos tem, tem marido, e namorado, quantos filhos, com o à-vontade e a condescendência com que, por vezes, nos tratam, como se os putos fossemos nós. Um outro, aproxima-se e curioso com o correr da conversa lança como que orgulhoso: “Professora, já teve alguma turma pior do que a nossa?!” Regra de oiro a perguntas com truque – Nunca ceder! - “Claro, vocês são uns anjinhos!” Afastou-se a remoer a resposta. Continuando a conversa, a rapariga quis saber de onde vinha, ao que eu respondi: “Almada”. “Onde é isso?! Nunca ouvi falar!” “Conheces Lisboa?! Tem um rio, não tem?!” “ Sim?!” “Sim!  Como se chama o rio, sabes?!” “Sei lá como se chama o rio!” O rapaz pensativo diz, passado um breve momento de hesitação: “O Tejo?!” “ Sim, claro que é o Tejo! Então, tens Lisboa e tens o Tejo. Na outra margem do rio fica Almada. Já ouviram falar na Costa da Caparica?!” A distraída: “Não!” Ele: “Sim, aquela praia cheia de gajas boas!” “Pois, entre tanta gente que a frequenta deve ter algumas gajas boas!” Continuei: “As praias da Costa pertencem ao concelho de Almada, a casa dos meus pais fica a uns 5 km da costa!” Um pouco questão: "Já agora, qual é a capital de Portugal?!” A sempre desinformada encolheu os ombros, o outro respondeu rápido com ar de incredulidade: “É Lisboa!” “Pois é. E qual a capital de França!” Ele: “Londres!” “Pensa lá melhor, em Londres falas inglês! Em Pa-ris, falas francês, a sua capital! E de Itália?” Ele novamente: “Veneza!” “A cidade é italiana mas não é a capital. Começa com um R! “A rapariga subitamente entusiasmada: “ Roménia!” “Não, Roménia é um país, não uma cidade”. O rapaz, sabedor, cansado de ser posto à prova e querendo ripostar numa área que dominava, contra-atacou: “Sabe o que é um úbero?!” “Sim, a teta das vacas!” “E uma rabada?!” “O rabo da vaca ou do boi!” “E a veia do leite?!” “Não faço a mínima ideia! “. Sorriu. Voltei à carga: “Quem é o presidente de Portugal?!E o primeiro-ministro?!” A rapariga suspirou: “ Eiiiii, outro dia falámos disso na aula, era qualquer coisa Passos Coelho!” “Sim, o Pedro Passos Coelho é o primeiro-ministro e o Aníbal Cavaco Silva o Presidente! E já agora, quem foi o 1º Rei de Portugal?” O rapaz, sempre o rapaz: “Essa é fácil, foi D. Afonso Henriques!” “Boa, e o último rei?!” Dei-lhes algumas pistas mas não chegaram lá, ao invés diz o espertalhão: “Ó professora, como quer que eu saiba, foi há tanto tempo!” Respondo: “O D. Afonso Henriques é muito mais velho e tu sabias!”. E o meu aluno a ficar aborrecido, subitamente lança como quem pensa “ vou-te tramar!”: “Então, muito bem! Diga lá se sabe, quem é o Presidente da junta de freguesia da Feteira?!” Pois bem, tramou-me, a conversa encerrou ali mesmo, fui ver dos outros.                             
Um dia típico de aulas da escola publica dos últimos anos é um dia em que, por mais criativa e susceptível de elaborares cenários que sejas, nada te prepara para a singularidade rotineira de cada tempo de aula. Vais armada da tua maior e quase inesgotável paciência e numa espécie de fatídica inevitabilidade enfrentas cada hora com a perseverança dos bravos ou dos loucos, de acordo com a perspectiva. Surpreendes-te, no final, que ainda te mantenhas sã e capaz de um raciocínio lúcido e critico. Passas uma esponja pelo assunto ainda que não esqueças para que possas, no dia seguinte voltar à batalha de nervos e palavras e acções e saíres inteira no processo. No final de tudo, do mês, do ano, da década, curiosamente, ainda acreditas que ajudaste na mudança de algo, de uma visão, de um desabrochar de alma, de um despertar de mente, de uma luz , de uma escolha para a vida. 

   Caminhas para a última aula do dia, vens cansada e anseias por esticar as pernas, libertar-te das sapatilhas, e fechares os olhos em silêncio. Tu sabes o valor do silencio, quando o tens tão pouco. És avistada pelos pré-delinquentes de serviço à escola, os enjeitados da casa onde vivem, os que a escola recebe como o último reduto antes de passarem a delinquentes de mão cheia. A ti dizem-te que tens que os aturar porque só tu é que o fazes, se não lhes dás a mão, eles rebolam por ali abaixo até a uma qualquer cela de qualquer prisão, ou nas garras da droga e do álcool, atoleimados e ignorantes antes de cumpridos os 30. Tens que aguentar porque a sociedade agradece. Aguentas! 
   Lá em cima simulam que cospem para ti, puxam o cuspo para dentro em esgares e ruídos de besta e retraem-se no último momento num qualquer acto de contrição. Os mais burros cospem-te mesmo mas como o percurso é longo, o cuspo prende-se na árvore mais próxima e fica a escorrer num fio viscoso. Com a calma só possível pelo engrossar da casca em muitos anos de uso, avisas que não entram, confirmas com o funcionário e são recambiados para outras paragens, que na tua não ficam,  Limpam vidros ou o que houver que lhes limpe o sujo de dentro.  Não percebem, estavam a brincar e nesse pressuposto que pela brincadeira tudo se consente, assentam todas as constantes boçalidades das suas vidas.

   Foi ontem, e hoje o dia repete-se e a constância dos comportamentos também. Outros personagens, uma linha comum. Em quatro momentos de um mesmo dia, de uma mesma manhã, quatro histórias de uma prática diária:

    - A turma é para quem têm pêlo no peito, de gancho e truculenta; não te permites distracções nem confraternizações; se queres fazer humor perdes o teu tempo, ironia é língua desconhecida, se elaboras muitos o discurso ofendem-se porque muito provavelmente estás a fazer troça deles; são humoristas,  no entanto, mas num só sentido, o deles. Tentas ensinar e por vezes eles tentam aprender. Se no entanto tentas ensinar de uma forma diferente da forma como eles querem aprender, aparecem-te logo sete ou oito que te dizem como fazer, dizem-te que não, que não é assim que se faz e ofendem-se. São muito de se ofender, têm a sensibilidade à flor da pele como divas num palco enquanto vão lançando caralhadas e foda-se à discrição. Os que querem aprender, que são poucos, olham embaraçados em redor e fazem-se pequenos para que não sobre também para eles. Avanças uma e outra vez na senda de lhes fazer ver, fazer simplesmente ver a pertinência de uma acção, tentas que percebam. Dizes; "Tenta perceber que deves tentar sempre fazer a recepção da bola com as duas mãos! Um deles que pode ser qualquer um: " Eu recebo com as mãos que me apetecer!"
   - Uma hora mais tarde, outra turma, a cuspidora, rapazes de quinze, dezasseis, dezassete anos que não sabem quanto é 2x3 e que um minuto tem sessenta segundos. Porque metade da turma chega sempre tarde e faz disso gala, pergunto porque demoraram tanto nos balneários ao que um responde " estiveram a comer-se uns aos outros". Junto a turma e falo com eles, pergunto se acham adequado, correcto ou respeitoso para alguém, estou calma porque  a explosão se reserva para apenas alguns momentos. Estou calma e questiono, alguns protestam e outros riem e nesse vai e vem de comentários diz o primeiro sobre outro que o interpelou " tu deves ser a mulher lá dentro!". Encerrou a tentativa de diálogo.
   - Uma turma de miúdos pequenos de onze, doze anos  mas de problemas grandes e variados.  Formação de equipas, faço por rodar por eles todos, um deles, um dos que escolhia e que já tinha escolhido os que queria arma o burro, pergunto o que se passa, responde " JÁ não há NADA de jeito para escolher!" Interrupção de aula, esta é formada por um grande conjunto de interrupções com momentos fugazes de aula. Faço ver uma e outra vez, faço por entender porque é inadmissível dizer que não há nada de jeito, não entende porquê. Ele e os outros, os renegados também;
    Noutro momento, a miúda má de serviço, uma espevitada de fogo nas ventas, malcriada e com a língua solta mais do que a conta, porque outro a irritava e um colega o pós no seu lugar, grita bem perto dos meus ouvidos " Chupa, cabrão!" Apercebe-se do que diz mas mesmo assim tenta desculpar-se, culpando o colega. É assim que os miúdos resolvem as suas culpas, desculpando os seus actos por reacção aos actos indesculpáveis dos outros, É a turma dos miúdos que a sabem toda, até da perversidade reservada aos mais velhos, a historia dos pais e das famílias retortas  de contornos  duvidosos, de bebedeiras, abusos e relações promiscuas com gerações de permeio.

  Esses são os miúdos e os jovens das freguesias rurais da banda sudeste da ilha, entre Angra do Heroísmo e a Fonte do Bastardo,  Alguns, mas que começam a ser muitos.



   Já me desgastei a tentar explicar a um aluno que me disse " as pessoas têm o direito de dizer asneiras, se quiserem" que não  o podem fazer, que a liberdade não nos permite fazer tudo o que nos passa pela cabeça; já me desgastei a explicar a outros que não podem andar a roçar-se uns nos outros só porque estão a descobrir a sexualidade e o seu impulso primeiro é o de concretizarem o que apetece no momento; não é aceitável jovens, adolescentes, roçarem os seus órgãos genitais no rabo de colegas do mesmo sexo ou outro. Assim como não é aceitável coçarem os testículos e puxarem o pénis para o lado porque ficou preso na cueca e o mal estar é enorme; nunca é tão mal  quanto aquele que tem que gramar com o acto. Retira-se discretamente e faz o que precisa fazer sem que todos os outros partilhem de um gesto que deve permanecer no reduto da sua intimidade. Não tenho, também que ver línguas em exploração reciproca  nem troca de fluidos salivares. Dispenso ser forçada a demonstrações  de amor selvagem e grunhidos mais ou menos ininteligíveis sobre a perfeição do outro. 

Qual é a minha equipa?!

   Um claro exemplo de pergunta com truque OU a arte juvenil de Perguntar o óbvio, OU ainda Como confundir um cérebro já enfraquecido depois do batuque de 20 bolas X 5 horas a uma média de 60 batimentos por minuto:
Jogo (não importa de quê), duas equipas, uma com coletes, outra sem coletes; um aluno que se encontra sentado e de rompante se levanta, de colete na mão já com um braço vestido, colete azul por sinal, o que para o caso não se revela de importância, de excitação na voz se dirige para mim de olhos bem abertos e pergunta: " Qual é a minha equipa?!"